domingo, fevereiro 28, 2010

As papoilas vermelhas


Field of Poppies - Vincent Van Gogh

Sentados a meu lado enlaçavam as mãos. Ela deslizava serenamente o polegar ao longo do dele. Num movimento contínuo e delicado, como se todo o significado do amor pudesse estar contido nesse gesto. Observei-os e baixei o meu olhar. O meu olhar era um espelho que me reflectia, que me expunha…
A felicidade é tão efémera como um botão de rosa dourada, e eu já não acredito no amor… Ou então passei a viver com receio do amor. Com receio de que tu não existas. Que nunca venhas e me embales com o teu suave canto. E sinto-me tão só… tão cansado de esperar…
Houve um tempo em que as minhas palavras eram tuas. Um tempo em que vivia a doce ilusão de também as tuas serem minhas. E eu acreditava. Em ti.
Ao longe caminhas pelo jardim das papoilas vermelhas. Sorrio para ti mas tu não me vês. Chamo por ti mas tu não me ouves. Tento ir ao teu encontro mas lentamente a tua figura, os teus contornos, esvaecem. Corro para ti, por ti, mas já és jardim, já és as papoilas vermelhas...

As papoilas vermelhas – Jorge Dourado

18 comentários:

Anónimo disse...

Este teu silêncio disse(-me) tudo.

*

Sofia Carvalho disse...

Excelente texto em prosa jorge, acompanhada com uma linda pintura do Van Gogh;)
O meu pintor preferido;)

© Piedade Araújo Sol disse...

Um texto muito bonito!

uma boa semana!

beij

Ana disse...

[...] *

Claudia Sousa Dias disse...

e as correntes, que tal achaste este ano?

Nirvana disse...

Lindo, lindo, lindo!

JFDourado disse...

Gostei muito, claro. As correntes são sempre uma festa da literatura. Sempre casa cheia, ambiente descontraído, facilidade de interacção com os escritores... ou não se tratasse do já famoso... milagre da Póvoa!!! :D

Obrigado pelos vossos comentários :)

moriana disse...

nada como papoilas para definir a embriaguez de amor...
:)
bj.

Nirvana disse...

Só por curiosidade, nunca juntaste essas tuas palavras, com que nos tens brindado aqui, e publicaste um livro?

JFDourado disse...

Oh, os olheiros literários devem andar distraídos! ;P

Poetic GIRL disse...

Que bonito Jorge, espero que encontres o que procuras... bjs

JFDourado disse...

Obrigado, Poetic GIRL.
E bem-vinda à asa do silêncio :)*

Nirvana disse...

Porque não fazes isso? Escreves lindamente, escreves tão bem! Tens o que se chama aquele "toque" que faz de algumas pessoas escritores e de outras não.
Às vezes perco-me pelas livrarias ou na FNAC a folhear livros. Leio uma página deste, duas daquele, quando são autores que eu não conheço (que são muitos). Se eu lesse alguns dos textos que escreveste aqui, trazia o livrinho.

Bjks

JFDourado disse...

Assim fico sem jeito, Nirvana! :D

E isso de nos perdermos pelas livrarias... como te entendo.
Deixo-te aqui uma possível solução: Primeiro a incursão deve ser metodicamente planeada, com um objectivo bem definido. Depois, há que suster a respiração, entrar e seguir em linha recta com os olhos fixos no chão. Chegados à prateleira, há que pegar o livro em mente, sem hesitações, e voltar pelo mesmo caminho. Mas atenção, sempre com os olhos fixos no chão. Não esquecer!!! E por fim, cá fora e livres de perigo... inspirar e expirar, inspirar e expirar, inspirar e expirar... :D

Obrigado :)*

Nirvana disse...

:)
Vou tentar, mas não sei. Talvez num dia em que leve uns sapatos acabados de comprar!! Tenho é de levar um cartaz a dizer "A mudança de cor de tom de pele para vermelho-azul-roxo é de livre e espontânea vontade. Não chamem o INEM."
Beijinhos :)

JFDourado disse...

lol! Estou a ver que ideias não nos faltam, mas a verdade é que a vontade para as colocar em prática também não é muita, não é?! :D*

alice disse...

um bonito excerto, jorge. onde posso encontrar o livro? :) beijinhos.

JFDourado disse...

Bom, estou a ver que uma coisa é certa... pelo menos as minhas palavras conseguem fazer com que as pessoas apurem o seu sentido de humor... =D

Obrigado Alice :)*