Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

Correntes d'Escritas 2010





Já estamos em Fevereiro, mês das... Correntes d'Escritas! :)
Todas as informações podem ser encontradas aqui.

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Cemitério de Pianos


O Casamento da Virgem - Rafael Sanzio

Casámos sozinhos.
Dois sábados antes, caminhámos juntos até à baixa. Não demos a mão, mas os nossos sorrisos eram apenas um para o outro. Entrámos num armazém de montras com modelos vestidos com a última moda. Ela não demorou muito até apontar para um rolo de tecido: fim de estação, fim de peça. Enquanto trocávamos sorrisos, enquanto acreditávamos mais, os metros foram medidos sobre o balcão.
Foi esse tecido, nem demasiado sóbrio, nem demasiado extravagante, que a costureira riscou com giz, cortou, coseu e, através dessa arte, fez um vestido da maneira que a minha mulher imaginou. Foi esse vestido que ela estreou na manhã de segunda-feira em que nos casámos.
Estava tudo tratado, levávamos os papéis na mão, mas entrámos no registo civil sem sabermos. Fui eu que me aproximei do balcão e, quando passou um senhor a carregar uma pilha de papéis junto ao peito, fui eu que lhe disse bom dia. Não respondeu. Continuou indiferente, zangado com o mundo e com todos os arquivos. Seguimo-lo com o olhar durante minutos que passaram nos ponteiros do relógio que estava pendurado na parede.
Num instante que escolheu, o senhor do registo caminhou na minha direcção, penteou o bigode com os dedos, parou-se no outro lado do balcão e, entediado, como se perguntasse, disse:
- Ora, se faz favor…
Estendi-lhe os papéis e expliquei-lhe que vínhamos casar.
Recebeu os papéis, colocou os óculos e demorou-se a ler o impresso que outro senhor, naquele mesmo balcão, me tinha dado havia mais de um mês. Sem dizer nada, ergueu ligeiramente o rosto e olhou-nos por cima dos óculos. Abriu e fechou, abriu e fechou os outros documentos. Sem dizer nada, levantou a tábua que nos dava acesso ao outro lado do balcão. Seguimo-lo por entre secretárias vazias, pilhas de papéis, armários de dossiers, até chegarmos a uma sala branca. Ele sentou-se a uma mesa, tossiu duas vezes e abriu um livro que cobria todo o tampo da mesa. Nós sentámo-nos em duas cadeiras de madeira grossa.
Sem nunca nos dirigir o rosto, o senhor do registo leu algumas frases com pressa, sem pronunciar as palavras completamente: a misturar palavras: um zumbido de palavras. Nas pausas breves em que se deteve, eu disse sim depois de ouvir o meu nome completo e, pouco depois, ela disse sim. O senhor do registo respirou fundo e soprou durante o tempo que levei a tirar a aliança do bolso e a acertá-la no dedo dela. Ficámos a olhar um para o outro e a sorrirmos enquanto terminou as frases que tinha de dizer. Virou o livro na nossa direcção:
- Assine aqui.
Eu assinei e ela assinou. Foi só nesse momento que o senhor do registo reparou que não tínhamos padrinhos.
- Não têm padrinhos?
Sem esperar pela resposta, levantou-se e atravessou a sala com passos curtos e rápidos. Voltou com um livro grosso que tinha a letra B na lombada. Abriu-o numa página e escolheu-me um padrinho e uma madrinha. Abriu-o noutra página e escolheu um padrinho e uma madrinha para ela. Copiou os nomes para a página do outro livro: Bartolomeu, Belarmina, Baltazar, Belmira. Com caligrafias diferentes, assinou por baixo de cada um.
Saímos leves.
Nesse dia, não fui trabalhar. Na manhã seguinte, quando o meu tio chegou à oficina, não me disse nada.

in “Cemitério de pianos” – José Luís Peixoto

Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

Quimera dos poetas


Girl in a Chemise - Pablo Picasso

És rio de primordial seiva cingindo-me no marulhar do teu peito.
Murmuras palavras na minha boca, rubros lábios roçando… e roçando-te em mim flutuas.
Digo-te, há um jardim para lá do fim das cores, ali onde surge a tua sombra.
Sou o afago nos teus cabelos. Sou o beijo com que tudo principia, quimera dos poetas.
Em chamas dois tigres irrompem do teu olhar enquanto sorris no meu sorriso e mergulho no teu leito.

Quimera dos poetas – Jorge Dourado

Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

Lhasa de Sela (1972 - 2010)



Domingo, Dezembro 20, 2009

Feliz Natal!!!


Feliz Natal - Jorge Dourado


Desejo-vos um...

FELIZ NATAL!!! :)



NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Natal - Manuel Alegre



Sábado, Dezembro 05, 2009

Vinte e zinco


Oxpecker Head - Theresa Ruth Eichler


Castro olha de si para si: suas pernas estão todas conspurcadas, o matope lhe engomando os movimentos. Pela primeira vez, ele está sujo da mesma matéria com que Irene se manchava. Essa lama que lhe chapeava as pernas, numa pasta cinzenta ao jeito dos elefantes. Parecia envergar África, besuntado dos seus fluidos mais viscerais. Lhe ocorre a lembrança de uma tarde em que o vieram chamar para dar destino a um búfalo que se atolara nos pântanos. O jipe derrapou pelo chão amolecido dos tandos. Súbito, entre as palmeiras lalas, lhe surge a besta, meio afundada na lama. Os cascos pisavam subterrâneas nuvens e as pernas já perdiam função. O bicho dava pena: sob o til da cornadura, os olhos vermelhos como se a terra já assomasse em seu olhar, parecia se descobrir subitamente mortal. Impotente prisioneiro dessa mentira que é haver chão em toda a terra.
O que mais marcou o português não foi a visão desse lento naufrágio. Mas foi o pássaro carraceiro, mais seu bico vermelho. Já o búfalo submergia, inevitável, e a ave ainda se conservava de pouso em seu dorso. Fosse ele o comandante que afundasse junto com o navio.
A lembrança do búfalo lhe chegava agora, como se tudo pesasse e a ave que pousa na curva do horizonte fosse a pique com o mundo. Lhe doía esse simples ensinamento: tudo é terminável, até o futuro.


in “Vinte e zinco” – Mia Couto


Sábado, Novembro 21, 2009

Lunário


Beleza Pura - Beatriz Milhazes


Antes de partir, Nému, talvez ainda não seja tarde para começares a regressar. Estou sozinho, ardo na memória das noites em que não te conhecia. E não sei se suportarei o peso de teu rosto ausente sobre o peito, tatuado; e talvez recorde a tua respiração enforcando-me, noite após noite, enquanto durmo. Tua mão escavou o desejo entorpecido nestas débeis veias, e já não sei se sonhamos o mesmo sonho, ou se nos levantamos ao mesmo tempo para o amor, mas ainda te amo.
Aliso tuas pálpebras durante as noites de vigia e sei que uma vida anterior à minha presença as feriu. No entanto, sinto que ainda és capaz de me olhar como se eu contemplasse o mar. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E latejamos, além, onde nos perdemos para sempre.
As tuas mãos vestiram as minhas, e fizeram-nas voar de sedução em sedução. Mas, dentro das fotografias, erguem-se pirâmides de cintilantes ossos, pequenas nódoas de memórias, feixes de veias quebradas pelas chuvas… não, não é o solitário canto do noitibó que nos surpreende, nítido, persistente, mas sim o grito que há-de crescer do fundo de nós. E, com o tempo, as mãos, as tuas, cairão também no esquecimento… e delas apenas permanecerá uma sensação de ardor sobre a minha pele.
Na boca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão, e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar.


in “Lunário” – Al Berto