domingo, abril 06, 2008

O velho que lia romances de amor


Martin Johnson Heade - Cattleya Orchid and Three Brazilian Hummingbirds


- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.
Os olhos do velho iluminaram-se.
- De amor?
O dentista fez que sim.
António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
- São tristes? – perguntava o velho.
- De chorar rios de lágrimas – garantia o dentista.
- Com pessoas que se amam mesmo?
- Como ninguém nunca amou.
- Sofrem muito?
- Eu quase não consegui suportar – respondia o dentista.
Mas o doutor Rubicundo Loachamín não lia os romances.
Quando o velho lhe pediu o favor de lhe trazer leitura, indicando muito claramente as suas preferências – sofrimentos, amores infelizes e desfechos felizes - , o dentista sentiu que estava perante um encargo difícil de cumprir.
Pensava em como seria ridículo entrar numa livraria de Guaiaquil e pedir: “Dê-me um romance bem triste, com muito sofrimento por causa do amor e com um final feliz”. Haviam de tomá-lo por um velho maricas, e a solução veio ele a encontrá-la inesperadamente num bordel da marginal.
O dentista gostava de pretas, primeiro porque eram capazes de dizer palavras que punham de pé um pugilista KO e, segundo, porque não suavam na cama.
Uma tarde, estava ele a retouçar com Josefina, uma esmeraldina de pele brilhante como a de um tambor. Quando viu um lote de livros arrumados em cima da cómoda.
- Tu lês? – perguntou.
- Leio. Mas devagarinho – respondeu a mulher.
- E quais são os livros de que gostas mais?
- Os romances de amor – respondeu Josefina, acrescentando os mesmos gostos de António José Bolívar. A partir dessa tarde Josefina foi alternando os seus deveres de dama de companhia com os de crítico literário e, de seis em seis meses, seleccionava os dois romances que, na sua opinião, proporcionavam maiores sofrimentos, os mesmos que mais tarde António José Bolívar Proaño lia na solidão da sua choça diante do rio Nangaritza.
O velho recebeu os livros, examinou as capas e declarou que gostava.


In “O velho que lia romances de amor” – Luis Sepúlveda

7 comentários:

alice disse...

gostei especialmente da forma como citaste :) "com toda a confusão do morto". e vou procurar o livro ;)

Andreia Ferreira disse...

:) Também eu vou ver se o encontro... *

JFDourado disse...

Então desejo que a vossa demanda do livro seja coroada de êxito porque vale mesmo a pena lê-lo. Já o tinha lido há uns anos atrás e na semana passada vi-o na livraria a olhar para mim e não resisti em traze-lo comigo.

:)

~pi disse...

melancolicamente

perfeito :)

Ana disse...

:) este pedaço é perfeito, bela escolha...
esta "nova" música do Wim Mertens é deliciosa

ah, e o quadro... fiquei colada a ele. fez-me lembrar a Terra do Nunca. Pelo menos é mais ou menos assim que a imagino :D

Lis disse...

Tudo em sintonia:o texto, a imagem, o som...

Claudia Sousa Dias disse...

Eu também gostei muito de o ter lido!"

trata-se do melhor da escrita de Luís Seppúlveda...O texto final é dilacerante...

Parabéns pela escolha do texto e da beleza luxuriante e exótica da imagem...sou fanática por orquídeas...


CSD