domingo, maio 27, 2007

XXII


Agon Schiele - Reclining Semi-Nude With Red Hat

Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez sem me lembrar,

sem reconhecer teu olhar, sem olhar-te, centáurea,

em regiões hostis, num meio-dia ardente:

tu eras só o aroma dos cereais que amo.


Vi-te talvez, imaginei-te ao passar erguendo uma taça

em Angol, à luz da lua de Junho,

ou eras tu a cintura daquela guitarra

que toquei nas trevas e soou como o mar desmedido.


Amei-te sem o saber, e procurei a tua memória.

Nas casas vazias entrei com lanterna para roubar o teu retrato.

Mas eu já sabia como eras. De repente


enquanto ias comigo toquei-te e a minha vida parou:

estavas diante de mim, reinando sobre mim, e ainda reinas.

Como fogueira nos bosques, o fogo é o teu reino.


Pablo Neruda – XXII - Cem sonetos de amor


2 comentários:

Cometa 2000 disse...

Egon Schiele e Pablo Neruda é uma combinação estranha...

aqui ficou brilhante.

Claudia Sousa Dias disse...

Claro que só podia ser Neruda!

Adoro lê-lo em voz alta, mas em castelhano.

O impacto é brutal...


CSD