sábado, março 14, 2009

O carteiro de Pablo Neruda


Mariposa - Beatriz Milhazes


Mario limpou o suor da fronte com as costas da mão, enxugou o telegrama passando-o pelas coxas, e pô-lo na mão do poeta.
- Don Pablo – declarou solene. – Estou apaixonado.
O vate fez do telegrama um leque, que se pôs a abanar diante do queixo.
- Bem – respondeu – não é assim tão grave. Isso tem remédio.
- Remédio? Don Pablo, se isso tem remédio, eu só quero estar doente. Estou apaixonado, perdidamente apaixonado.
A voz do poeta, tradicionalmente lenta, pareceu deixar cair desta vez duas pedras, em vez de palavras.
- Contra quem?
- Don Pablo?
- De quem, homem?
- Chama-se Beatriz.
- Dante, diabos!
- Don Pablo?
- Houve uma vez um poeta que se apaixonou por uma tal Beatriz. As Beatrizes produzem amores desmedidos.
O carteiro esgrimiu a sua esferográfica Bic, e arranhou com ela a palma da mão esquerda. – O que estás a fazer?
- Escrevo o nome desse tal poeta. Dante.
- Dante Alighieri.
- Com «h».
- Não, homem. Com «a».
- «A» como «açucena»?
- Como «açucena» e «aipo».
- Don Pablo?
O poeta sacou da sua caneta verde, pôs a palma da mão do rapaz sobre a rocha e escreveu com letras pomposas. Quando se preparava para abrir o telegrama, Mario bateu a ilustre palma da mão na testa, e suspirou:
- Don Pablo, estou apaixonado.
- Isso já o disseste. E em que posso ser-te útil?
- Tem de ajudar-me.
- Com a minha idade!
- Tem de ajudar-me, porque não sei o que hei-de dizer-lhe. Vejo-a à minha frente e é como se fosse mudo. Não me sai uma só palavra.
- O quê? Não falaste com ela?
- Quase nada. Ontem fui passear pela praia como disse. Fiquei a olhar o mar muito tempo, e não me ocorreu nenhuma metáfora. Então, fui à taberna e comprei uma garrafa de vinho. Bem, foi ela que me vendeu a garrafa.
- Beatriz.
- Beatriz. Fiquei a olhá-la, e apaixonei-me por ela. Neruda coçou a sua plácida calvície com o dorso do lápis.
- Tão depressa!
- Não, tão depressa não. Fiquei a olhá-la aí uns dez minutos.
- E ela?
- E ela disse-me: «O que estás a olhar, porventura tenho macacos na cara?»
- E tu?
- A mim não me ocorreu nada.
- Nada de nada? Não lhe disseste nem uma palavra?
- Assim nada de nada também não. Disse-lhe cinco palavras.
- Quais?
- Como te chamas?
- E ela?
- Ela disse-me «Beatriz González».
- Perguntaste-lhe «como te chamas». Bem, já faz três palavras. Quais foram as outras duas?
- «Beatriz González».
- Beatriz González?
- Ela disse-me «Beatriz González» e então eu repeti «Beatriz González».


in “O carteiro de Pablo Neruda” - Antonio Skármeta

6 comentários:

Veruska disse...

Depois de visitar duas casas-museu de Neruda no Chile (Valeparaíso e Santiago do Chile) reli, recentemente, este livro.

É absolutamente magnífico!

JFDourado disse...

Mas que bela viagem que fez, Veruska! O Chile deve ser um pais lindíssimo.

:)

Ana disse...

tão lindo :D *

JFDourado disse...

Eu farto-me de rir, como sabes Ana, sempre que leio este livro. Este pedacinho é um dos meus preferidos.

:)

Maria disse...

O livro é mto bom. Boa escolha do excerto :)

Beijinho

JFDourado disse...

:)

Beijinho