terça-feira, março 06, 2007

Vertentes


Uriy Kakichev - The Sun in the Grass

As palavras esperam o sono

e a música do sangue sobre as pedras corre

a primeira treva surge

o primeiro não a primeira quebra


A terra em teus braços é grande

o teu centro desenvolve-se como um ouvido

a noite cresce uma estrela vive

uma respiração na sombra o calor das árvores


Há um olhar que entra pelas paredes da terra

sem lâmpadas cresce esta luz de sombra

começo a entender o silêncio sem tempo

a torre estática que se alarga


A plenitude animal é o interior de uma boca

um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio

sou o teu lábio e a coxa da tua coxa

sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo

sou a sombra que conhece a luz que a submerge


a luz que sobe entre

as gargantas agrestes

deste cair na treva

abre as vertentes onde

a água cai sem tempo


António Ramos Rosa – Vertentes


domingo, fevereiro 25, 2007

Tentei fugir


Uriy Kakichev - Eve


Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão...


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que me sai, sem voz, do coração.


David Mourão-Ferreira - Tentei Fugir



sábado, fevereiro 17, 2007

No Fundo Aberto



Auguste Renoir - Irene


Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso

como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa - No Fundo Aberto




sábado, fevereiro 10, 2007

Desce em folhedos tenros a colina


John William Waterhouse - Windflowers


Desce em folhedos tenros a colina:

- Em glaucos, frouxos tons adormecidos,

Que saram, frescos, meus olhos ardidos,

Nos quais a chama do furor declina...


Oh vem, de branco, - do imo da folhagem!

Os ramos, leve, a tua mão aparte.

Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,

Reflectir-te virgem a serena imagem.


De silva doida uma haste esquiva

Quão delicada te osculou n'um dedo

Com um aljofar cor de rosa viva!...


Ligeira a saia... Doce brisa, impele-a.

Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!

Alma de silfo, carne de camélia...


Camilo Pessanha - Desce em folhedos tenros a colina

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Nocturno


Amedeo Modigliani - Caryatid


O desenho

redondo do teu seio

Tornava-te mais cálida, mais nua

Quando eu pensava nele...Imaginei-o,

À beira-mar, de noite, havendo lua...


Talvez a espuma, vindo, conseguisse

Ornar-te o busto de uma renda leve

E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,

Em ti, a branca irmã que nunca teve...


Pelo que no teu colo há de suspenso,

Te supunham as ondas uma delas...

Todo o teu corpo, iluminado, tenso,

Era um convite lúcido às estrelas....


Imaginei-te assim á beira-mar,

Só porque o nosso quarto era tão estreito...

- E, sonolento, deixo-me afogar

No desenho redondo do teu peito...


David Mourão-Ferreira - Nocturno

domingo, janeiro 28, 2007

Me gustas cuando callas

William A Bouguereau - Seated Nude


Me gustas cuando callas porque estas como ausente,
y me oyes desde lejos y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mia.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolia.
Me gustas cuando callas y estas como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también com tu silencio
claro como una lámpara,
simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de una estrella,
tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

Pablo Neruda - Me gustas cuando callas

sábado, janeiro 20, 2007

Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas


Pierre Puvis de Chavannes - The Detail Imagination


Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas

E perfuma-as com o odor da sua lenta vulva

Ela tanto pode ser uma fêmea da lua com uma rapariga solar

Nas suas ancas ondula um indolente Outono e nos seus seios desponta a primavera.


Eu vejo-a e não a vejo na brancura da página

porque ela flutua vagamente na distância como uma lua no meio-dia

Mares bosques clareiras fontes em delicadas e delgadas linhas

Flúem com o fulgor dessa mulher azul

As palavras caminham com o ritmo fresco dos seus pés descalços

Sobre uma praia fulva de conchinhas brancas

O seu hálito doce embriaga as leves sílabas

E a doçura do seu lábio impregna as frases nuas

Ela é a presença ausente corpo de aragem viva

E a sua felicidade é tão vaga como vaga a sua longínqua imagem


António Ramos Rosa - Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas

sábado, janeiro 06, 2007

O Pastor Amoroso


Girl with a Pearl Earring - Jan Vermeer


Quando eu não te tinha

Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...

Agora amo a Natureza

Como um monge calmo à Virgem Maria,

Religiosamente, a meu modo, como dantes,

Mas de outra maneira mais comovida e próxima...

Vejo melhor os rios quando vou contigo

Pelos campos até à beira dos rios;

Sentado a teu lado reparando nas nuvens

Reparo nelas melhor —

Tu não me tiraste a Natureza...

Tu mudaste a Natureza...

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,

Por tu existires, vejo-a melhor, mas a mesma,

Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,

Por tu me escolheres para te ter e te amar,

Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente

Sobre todas as coisas.

Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou.


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferente do que a encontro a ela,

Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só

Pensar nela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


in "O Pastor Amoroso" - Alberto Caeiro

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Amor da palavra, amor do corpo


Flaming June - Lord Frederick Leighton

A nudez da palavra que te despe.

Que treme, esquiva.

Com os olhos dela te quero ver,

que te não vejo.

Boca na boca através de que boca

posso eu abrir-te e ver-te?

É meu receio que escreve e não o gosto

do sol de ver-te?

Todo o espaço dou ao espelho vivo

e do vazio te escuto.

Silêncio de vertigem, pausa, côncavo

de onde nasces, morres, brilhas, branca?

És palavra ou és corpo unido em nada?

É de mim que nasces ou do mundo solta?

Amorosa confusão, te perco e te acho,

à beira de nasceres tua boca toco

e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa - Amor da palavra, amor do corpo


quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ah, quanta melancolia!


William A Bouguereau - Cupidon


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.


Fernando Pessoa - Ah, quanta melancolia!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Uns pozinhos de perlim pim-pim


William A Bouguereau - Le ravissement de Psyche



Não sei se é deste tempo, descolorido e monótono, com o Sol a persistir no castigo da sua ausência, mas dei por mim, pensativo, acompanhado apenas pela voz de Nat King Cole.
Seria melhor não ouvir tais músicas. Se fosse mais prudente teria colocado, no cd, uma etiqueta, de um encarnado bem vivo, com o aviso “Altamente perigoso, requer muita precaução no uso”.
Distraído, como sou, falhou essa prudência e agora estou por aqui completamente fascinado, a sonhar estrelas e amores.
Perante a falta de um Sol que alumie tenho que me contentar, entre tristes suspiros, com um ténue e alvidúlcido luar. Este, a espaços, vai rasgando a escuridão de uma noite, que, cada vez mais, se vai tornando sombria e friorenta.
Como eu gostava de o convencer a voltar. Se pudesse, dizia-lhe que se deixasse de castigos injustos. Juntos inventávamos um plano. Seria tudo muito bem pensado. Falávamos com o Inverno. Lembrávamos-lhe que ao longo de todo este tempo nunca faltou sequer um ano ao serviço e que estava mais que na altura de finalmente ter o seu merecido repouso.
Depois era a vez de acordar o Verão. Dizíamos que era uma emergência. Que o Inverno inexplicavelmente havia desaparecido, sem dar notícias, e que alguém tinha que tomar o seu lugar.
A Primavera, sempre preocupada com a sua beleza, não podia porque assim teria que trabalhar dois turnos seguidos. Já o Outono, entre pedidos de desculpa, lembrou que os dias lhe vão pesando e que, se assim fosse, a sua performance certamente ficaria afectada…
Ai, como seria tudo tão fácil se ele quisesse... Bastavam apenas uns pozinhos de perlim pim-pim, alguma loucura e, claro está, uma boa dose de imaginação.
E o sonho, esse deixava de o ser…




JFDourado – Uns pozinhos de perlim pim-pim – 08/12/2006

sábado, dezembro 02, 2006

Que música escutas tão atentamente

John William Waterhouse - Listen to My Sweet Pipings


Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.

Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade – Que música escutas tão atentamente


domingo, novembro 26, 2006

Em todas as ruas te encontro


William A Bouguereau - The nymphaeum

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco


Mário Cesariny - Em todas as ruas te encontro

sábado, novembro 18, 2006

Amo o teu túmido candor de astro


John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs

Amo o teu túmido candor de astro

a tua pura integridade delicada

a tua permanente adolescência de segredo

a tua fragilidade sempre altiva


Por ti eu sou a leve segurança

de um peito que pulsa e canta a sua chama

que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro

ou à chuva das tuas pétalas de prata


Se guardo algum tesouro não o prendo

porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto

que dure e flua nas tuas veias lentas

e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar


Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva

para que sintas a verde frescura

de um pomar de brancas cortesias

porque é por ti que nasço

porque amo o ouro vivo do teu rosto.


António Ramos Rosa - Amo o teu túmido candor de astro

domingo, novembro 12, 2006

Estrela da Tarde


Auguste Renoir - La Promenade


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia

Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.

Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia

Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia

e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria

Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia

Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.


Ary dos Santos – Estrela da Tarde

sábado, novembro 04, 2006

O poder absoluto


William A Bouguereau - Young girl defending herself from Eros

Duas bocas descobrem o veludo incandescente

e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso

que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante

os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.

Vivem num volume cintilante o presente absoluto.


Corpos encerrados em superfícies delicadas

abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,

clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,

os olhos embriagam-se de miríades de cores

e todos os vocábulos são recentes como o orvalho,


Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,

transformam-se subindo morrendo em verde orgia,

inertes renascem de onda em onda radiantes,

reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,

o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.


António Ramos Rosa - O poder absoluto


quarta-feira, novembro 01, 2006

A inigualável


John William Waterhouse - Ophelia [lying in the meadow]

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de cetim...

Teus dedos longos, de marfim,

Que os sombreassem jóias pretas...

E tão febril e delicada

Que não pudesses dar um passo -

Sonhando estrelas, transtornada,

Com estampas de cor no regaço...

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas -

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias, fossem guizos de prata -

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

Teus beijos, queria-os de Tule,

Transparecendo carmim -

Os teus espasmos de seda...

- Água fria e clara numa noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...


Mário de Sá Carneiro - A inigualável

sábado, outubro 28, 2006

Madrigal III


O grito - Edvard Munch

Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.

Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos, que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.

Silva Alvarenga - Madrigal III


sábado, outubro 21, 2006

V


Nymphes et satyre - William A Bouguereau


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
a minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero fulminante,
a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.


Herberto Helder - V - Lugar - Poesia Toda

sábado, outubro 14, 2006

Respiro o teu corpo


Nude sdraiato - Amedeo Modigliani


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade - Respiro o teu corpo