segunda-feira, outubro 15, 2007

Para ti


Anabela Bolotinha - Mulher flor

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que falhei

o sabor do sempre


Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só olhar

amando de uma só vida


Mia Couto – Para ti

segunda-feira, outubro 08, 2007

Doze moradas do silêncio


Van Gogh - Field of Poppies

Envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer

Amassar com os dentes uma morte íntima

Durante a sonolência balbuciante das papoulas

Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão

para que os corpos tenham tempo de amadurecer


colher em tuas coxas o sumo espesso

e no calor molhado da noite seduzir as luas

o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas

do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas

das aves rasteiras ....


e crescerei das fecundas terras ou da morte

que sufoca o cio da boca.....

...subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente

transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes.


Al Berto - Doze moradas do silêncio


sábado, setembro 22, 2007

Como te Amo?


William A Bouguereau - Work Interrupted

Como te amo? Deixa-me contar os modos.

Amo-te ao mais fundo, amplo e alto

Minh'alma pode alcançar, além dos limites visíveis

E fins do Ser e da Graça ideal.


Amo-te até ao nível das mais diárias

E ínfimas necessidades, à luz do sol e das velas.

Amo-te com liberdade, como os homens buscam por Justiça;

Amo-te com pureza, como voltam das Preces.


Amo-te com a paixão posta em uso

Nas minhas velhas mágoas e com a fé da minha infância.

Amo-te com um amor que me parecia perdido


Com meus Santos perdidos - amo-te com o fôlego,

Sorrisos, lágrimas, de toda a minha vida! - e, se Deus quiser,

Amar-te-ei melhor depois da morte.


Elizabeth Barrett Browning - XLIII - Como Te Amo?

sábado, agosto 25, 2007

A Secreta Viagem


Egon Schiele - Embrace

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,

ficámos nós os dois, parados, de mão dada...

Como podem só dois governar um navio?

Melhor é desistir e não fazermos nada!


Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...

Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...

Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...


Aparentes senhores de um barco abandonado,

nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...

Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado,

se justifica, enflora, a secreta viagem!


Agora sei que és tu quem me fora indicada.

O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.

- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,

a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!


David Mourão-Ferreira - A Secreta Viagem



sábado, agosto 11, 2007

Granate


Gustav Klimt - Lady with Fan


Ya en tu carne hay ardores meridionales,

y en tu cuerpo magnífico de pantera

una jocunda y cálida primavera

dibuja esplendorosas curvas triunfales.


Amor prende en tus ojos llamas sensuales;

la sangre ya empurpura tu faz de cera

y bajo tu camisa, blanca y ligera,

tus senos incipientes son dos puñales.


Mas yo sé que tus lábios, donde está preso

el beso – esa libélula roja y rara –

no saben del encanto gentil del beso…


Feliz yo si lograra que en ânsia loca

mi ébria boca de sátiro derramara

la dulzura de un beso sobre tu boca!


Nicolás Guillén – Granate


sexta-feira, julho 27, 2007

Não desisti de habitar a arca azul


Amedeo Modigliani - Reclining nude-l

Não desisti de habitar a arca azul

do antiquíssimo sossego do universo.

A minha ascendência é o sol e uma montanha verde

e a lisa ondulação do mar unânime.

Há novecentas mil nebulosas espirais

mas só o teu corpo é um arbusto que sangra

e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.

Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes

vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.

Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos

de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.

Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,

sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!

A minha vida é uma lenta pulsação

sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.

Há bois lentos e profundos no meu corpo

de um Outono compacto e negro como um século.

Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos

a deusa da noite, sonâmbula, desliza.

Ao rumor da folhagem e da areia

escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.

Prisioneiro de longínquas raízes

ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.

Vislumbro uma luz incompreensível

sobre os campos áridos das semanas.

Elevo o canto profundo do meu corpo

sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.

Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões

ou como se tocasse os teus joelhos planetários

ou adormecesse languidamente no teu sexo.


António Ramos Rosa - Não desisti de habitar a arca azul

domingo, junho 24, 2007

Os versos que te fiz


Raphael Santi - Cherubini


Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.


Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!


Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!


Amo-te tanto! E nunca te beijei...

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca - Os versos que te fiz

domingo, maio 27, 2007

XXII


Agon Schiele - Reclining Semi-Nude With Red Hat

Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez sem me lembrar,

sem reconhecer teu olhar, sem olhar-te, centáurea,

em regiões hostis, num meio-dia ardente:

tu eras só o aroma dos cereais que amo.


Vi-te talvez, imaginei-te ao passar erguendo uma taça

em Angol, à luz da lua de Junho,

ou eras tu a cintura daquela guitarra

que toquei nas trevas e soou como o mar desmedido.


Amei-te sem o saber, e procurei a tua memória.

Nas casas vazias entrei com lanterna para roubar o teu retrato.

Mas eu já sabia como eras. De repente


enquanto ias comigo toquei-te e a minha vida parou:

estavas diante de mim, reinando sobre mim, e ainda reinas.

Como fogueira nos bosques, o fogo é o teu reino.


Pablo Neruda – XXII - Cem sonetos de amor


sexta-feira, maio 11, 2007

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio


James Tissot - Young Woman in a Boat

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)


Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.


Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.


Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.


Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.


Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento -

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.


Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.


E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço.


Odes de Ricardo Reis - Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio


quarta-feira, abril 25, 2007

V


William A Bouguereau - Amour a laffut

Que a noite te não toque, nem o ar nem a aurora,

só a terra, a virtude dos cachos,

as maçãs que crescem ouvindo a água pura,

a lama e as resinas do teu país fragrante.


De Quinchamali onde te moldaram os olhos

aos teus pés para mim criados na fronteira

tu és a argila escura que conheço:

nas tuas ancas toco de novo todo o trigo.


Tu não sabias talvez, araucana,

que quando antes de amar-te me esqueci dos teus beijos

o meu coração ficou lembrando a tua boca


E andei como um ferido pelas ruas

até perceber que havia encontrado,

amor, meu território de beijos e vulcões.


Pablo Neruda - V - Cem sonetos de amor

sexta-feira, abril 13, 2007

A Boca as Bocas


Pablo Picasso - The Kiss

Apenas

uma boca. A tua Boca

Apenas outra, a outra tua boca

É Primavera e ri a tua boca

De ser Agosto já na outra boca


Entre uma e outra voga a minha boca

E pouco a pouco a polpa de uma boca

Inda há pouco na popa em minha boca

É já na proa a polpa de outra boca.


Sabe a laranja a casca de uma boca

Sabe a morango a noz da outra boca

Mas sabe entretanto a minha boca


Que apenas vai sentindo em sua boca

Mais rouca do que a boca a minha boca

Mais louca do que a boca a tua boca.


David Mourão-Ferreira - A Boca as Bocas



domingo, abril 01, 2007

Teu corpo principia


William A Bouguereau - The first kiss

Dou-te um nome de água

para que cresças no silêncio.


Invento a alegria

da terra que habito

porque nela moro.


Invento do meu nada

esta pergunta.

(Nesta hora, aqui.)


Descubro esse contrário

que em si mesmo se abre:

ou alegria ou morte.


Silêncio e sol – verdade,

respiração apenas.


Amor, eu sei que vives

num breve país.


Os olhos imagino

e o beijo na cintura,

ó tão delgada.


Se é milagre existires,

Teus pés nas minhas palmas.


Ó maravilha, existo

no mundo dos teus olhos.


Ó vida perfumada

Cantando devagar.


Enleio-me na clara

dança do teu olhar.


Por uma água tão pura

vale a pena viver.


Um teu joelho diz-me

a indizível paz.



António Ramos Rosa - Teu corpo principia

sábado, março 24, 2007

Soneto de amor


Andrew Lipcko - Morning

Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.


Na tua boca sob a minha, ao meio,

Nossas línguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nus vibrem no enleio

Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua..., - unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,

Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois... - abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...

Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio - Soneto de amor



sábado, março 17, 2007

Preciso de palavras, de amor


Gustav Klimt - The kiss

Preciso de palavras, de amor. Tuas. Para mim. Palavras que sentem. Olhos que procuram. Os meus. Palavras onde transparece o desejo a corpos despidos. A metamorfose no uno. Palavras que confessam. Mãos frias. As tuas. Sem as minhas. Palavras que contam. Já não vou aos croissants quentes na Foz. Sem ti deixaram de ser doces e fofos. Palavras que relembram. Serralves. O perfume do jardim das aromáticas. Dois enlaçados num só corpo. O primeiro beijo, no banco de madeira junto ao lago. Olhos cerrados. Os meus. Um sorriso. Teu. Queria guardar para sempre o sabor dos teus lábios. Palavras tristes. Saudade. Os poemas que sussurrei ao teu ouvido. O nosso olhar cúmplice, de mãos dadas debaixo da mesa. A poesia num rosto. O teu. Um riso sereno. Meu. Preciso de palavras, de amor. Tuas. Para mim.

JFDourado - Preciso de palavras, de amor – 17/03/2007


terça-feira, março 06, 2007

Vertentes


Uriy Kakichev - The Sun in the Grass

As palavras esperam o sono

e a música do sangue sobre as pedras corre

a primeira treva surge

o primeiro não a primeira quebra


A terra em teus braços é grande

o teu centro desenvolve-se como um ouvido

a noite cresce uma estrela vive

uma respiração na sombra o calor das árvores


Há um olhar que entra pelas paredes da terra

sem lâmpadas cresce esta luz de sombra

começo a entender o silêncio sem tempo

a torre estática que se alarga


A plenitude animal é o interior de uma boca

um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio

sou o teu lábio e a coxa da tua coxa

sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo

sou a sombra que conhece a luz que a submerge


a luz que sobe entre

as gargantas agrestes

deste cair na treva

abre as vertentes onde

a água cai sem tempo


António Ramos Rosa – Vertentes


domingo, fevereiro 25, 2007

Tentei fugir


Uriy Kakichev - Eve


Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão...


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que me sai, sem voz, do coração.


David Mourão-Ferreira - Tentei Fugir



sábado, fevereiro 17, 2007

No Fundo Aberto



Auguste Renoir - Irene


Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso

como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa - No Fundo Aberto




sábado, fevereiro 10, 2007

Desce em folhedos tenros a colina


John William Waterhouse - Windflowers


Desce em folhedos tenros a colina:

- Em glaucos, frouxos tons adormecidos,

Que saram, frescos, meus olhos ardidos,

Nos quais a chama do furor declina...


Oh vem, de branco, - do imo da folhagem!

Os ramos, leve, a tua mão aparte.

Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,

Reflectir-te virgem a serena imagem.


De silva doida uma haste esquiva

Quão delicada te osculou n'um dedo

Com um aljofar cor de rosa viva!...


Ligeira a saia... Doce brisa, impele-a.

Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!

Alma de silfo, carne de camélia...


Camilo Pessanha - Desce em folhedos tenros a colina

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Nocturno


Amedeo Modigliani - Caryatid


O desenho

redondo do teu seio

Tornava-te mais cálida, mais nua

Quando eu pensava nele...Imaginei-o,

À beira-mar, de noite, havendo lua...


Talvez a espuma, vindo, conseguisse

Ornar-te o busto de uma renda leve

E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,

Em ti, a branca irmã que nunca teve...


Pelo que no teu colo há de suspenso,

Te supunham as ondas uma delas...

Todo o teu corpo, iluminado, tenso,

Era um convite lúcido às estrelas....


Imaginei-te assim á beira-mar,

Só porque o nosso quarto era tão estreito...

- E, sonolento, deixo-me afogar

No desenho redondo do teu peito...


David Mourão-Ferreira - Nocturno

domingo, janeiro 28, 2007

Me gustas cuando callas

William A Bouguereau - Seated Nude


Me gustas cuando callas porque estas como ausente,
y me oyes desde lejos y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mia.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolia.
Me gustas cuando callas y estas como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también com tu silencio
claro como una lámpara,
simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de una estrella,
tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

Pablo Neruda - Me gustas cuando callas

sábado, janeiro 20, 2007

Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas


Pierre Puvis de Chavannes - The Detail Imagination


Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas

E perfuma-as com o odor da sua lenta vulva

Ela tanto pode ser uma fêmea da lua com uma rapariga solar

Nas suas ancas ondula um indolente Outono e nos seus seios desponta a primavera.


Eu vejo-a e não a vejo na brancura da página

porque ela flutua vagamente na distância como uma lua no meio-dia

Mares bosques clareiras fontes em delicadas e delgadas linhas

Flúem com o fulgor dessa mulher azul

As palavras caminham com o ritmo fresco dos seus pés descalços

Sobre uma praia fulva de conchinhas brancas

O seu hálito doce embriaga as leves sílabas

E a doçura do seu lábio impregna as frases nuas

Ela é a presença ausente corpo de aragem viva

E a sua felicidade é tão vaga como vaga a sua longínqua imagem


António Ramos Rosa - Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas

sábado, janeiro 06, 2007

O Pastor Amoroso


Girl with a Pearl Earring - Jan Vermeer


Quando eu não te tinha

Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...

Agora amo a Natureza

Como um monge calmo à Virgem Maria,

Religiosamente, a meu modo, como dantes,

Mas de outra maneira mais comovida e próxima...

Vejo melhor os rios quando vou contigo

Pelos campos até à beira dos rios;

Sentado a teu lado reparando nas nuvens

Reparo nelas melhor —

Tu não me tiraste a Natureza...

Tu mudaste a Natureza...

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,

Por tu existires, vejo-a melhor, mas a mesma,

Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,

Por tu me escolheres para te ter e te amar,

Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente

Sobre todas as coisas.

Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou.


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferente do que a encontro a ela,

Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só

Pensar nela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


in "O Pastor Amoroso" - Alberto Caeiro

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Amor da palavra, amor do corpo


Flaming June - Lord Frederick Leighton

A nudez da palavra que te despe.

Que treme, esquiva.

Com os olhos dela te quero ver,

que te não vejo.

Boca na boca através de que boca

posso eu abrir-te e ver-te?

É meu receio que escreve e não o gosto

do sol de ver-te?

Todo o espaço dou ao espelho vivo

e do vazio te escuto.

Silêncio de vertigem, pausa, côncavo

de onde nasces, morres, brilhas, branca?

És palavra ou és corpo unido em nada?

É de mim que nasces ou do mundo solta?

Amorosa confusão, te perco e te acho,

à beira de nasceres tua boca toco

e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa - Amor da palavra, amor do corpo


quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ah, quanta melancolia!


William A Bouguereau - Cupidon


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.


Fernando Pessoa - Ah, quanta melancolia!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Uns pozinhos de perlim pim-pim


William A Bouguereau - Le ravissement de Psyche



Não sei se é deste tempo, descolorido e monótono, com o Sol a persistir no castigo da sua ausência, mas dei por mim, pensativo, acompanhado apenas pela voz de Nat King Cole.
Seria melhor não ouvir tais músicas. Se fosse mais prudente teria colocado, no cd, uma etiqueta, de um encarnado bem vivo, com o aviso “Altamente perigoso, requer muita precaução no uso”.
Distraído, como sou, falhou essa prudência e agora estou por aqui completamente fascinado, a sonhar estrelas e amores.
Perante a falta de um Sol que alumie tenho que me contentar, entre tristes suspiros, com um ténue e alvidúlcido luar. Este, a espaços, vai rasgando a escuridão de uma noite, que, cada vez mais, se vai tornando sombria e friorenta.
Como eu gostava de o convencer a voltar. Se pudesse, dizia-lhe que se deixasse de castigos injustos. Juntos inventávamos um plano. Seria tudo muito bem pensado. Falávamos com o Inverno. Lembrávamos-lhe que ao longo de todo este tempo nunca faltou sequer um ano ao serviço e que estava mais que na altura de finalmente ter o seu merecido repouso.
Depois era a vez de acordar o Verão. Dizíamos que era uma emergência. Que o Inverno inexplicavelmente havia desaparecido, sem dar notícias, e que alguém tinha que tomar o seu lugar.
A Primavera, sempre preocupada com a sua beleza, não podia porque assim teria que trabalhar dois turnos seguidos. Já o Outono, entre pedidos de desculpa, lembrou que os dias lhe vão pesando e que, se assim fosse, a sua performance certamente ficaria afectada…
Ai, como seria tudo tão fácil se ele quisesse... Bastavam apenas uns pozinhos de perlim pim-pim, alguma loucura e, claro está, uma boa dose de imaginação.
E o sonho, esse deixava de o ser…




JFDourado – Uns pozinhos de perlim pim-pim – 08/12/2006

sábado, dezembro 02, 2006

Que música escutas tão atentamente

John William Waterhouse - Listen to My Sweet Pipings


Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.

Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade – Que música escutas tão atentamente


domingo, novembro 26, 2006

Em todas as ruas te encontro


William A Bouguereau - The nymphaeum

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco


Mário Cesariny - Em todas as ruas te encontro

sábado, novembro 18, 2006

Amo o teu túmido candor de astro


John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs

Amo o teu túmido candor de astro

a tua pura integridade delicada

a tua permanente adolescência de segredo

a tua fragilidade sempre altiva


Por ti eu sou a leve segurança

de um peito que pulsa e canta a sua chama

que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro

ou à chuva das tuas pétalas de prata


Se guardo algum tesouro não o prendo

porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto

que dure e flua nas tuas veias lentas

e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar


Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva

para que sintas a verde frescura

de um pomar de brancas cortesias

porque é por ti que nasço

porque amo o ouro vivo do teu rosto.


António Ramos Rosa - Amo o teu túmido candor de astro

domingo, novembro 12, 2006

Estrela da Tarde


Auguste Renoir - La Promenade


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia

Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.

Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia

Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia

e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria

Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia

Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.


Ary dos Santos – Estrela da Tarde

sábado, novembro 04, 2006

O poder absoluto


William A Bouguereau - Young girl defending herself from Eros

Duas bocas descobrem o veludo incandescente

e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso

que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante

os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.

Vivem num volume cintilante o presente absoluto.


Corpos encerrados em superfícies delicadas

abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,

clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,

os olhos embriagam-se de miríades de cores

e todos os vocábulos são recentes como o orvalho,


Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,

transformam-se subindo morrendo em verde orgia,

inertes renascem de onda em onda radiantes,

reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,

o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.


António Ramos Rosa - O poder absoluto


quarta-feira, novembro 01, 2006

A inigualável


John William Waterhouse - Ophelia [lying in the meadow]

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de cetim...

Teus dedos longos, de marfim,

Que os sombreassem jóias pretas...

E tão febril e delicada

Que não pudesses dar um passo -

Sonhando estrelas, transtornada,

Com estampas de cor no regaço...

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas -

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias, fossem guizos de prata -

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

Teus beijos, queria-os de Tule,

Transparecendo carmim -

Os teus espasmos de seda...

- Água fria e clara numa noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...


Mário de Sá Carneiro - A inigualável